Assento de batismo de José Ribeiro, bisavô da autora, 1899
Todos crescemos a ouvir histórias dos nossos antepassados. Sem nos apercebermos, fomos construindo imagens mentais e relações com pessoas que nunca vimos. É dessas relações que nasce o interesse pela genealogia, a curiosidade pela história da família. E, entre todas as histórias, há muitas vezes uma pessoa, uma relação, que sem sabermos bem porquê é mais forte do que as outras.
Para mim, foi o bisavô José.
Ouvi a minha mãe citar a minha bisavó vezes sem conta: “Se o teu avô fosse vivo eras uma princesa.”
Era impossível descobrir mais tendo como ponto de partida apenas o nome.
Anos depois, asseguro-vos que não é.
Porque são precisas apenas duas coisas para descobrir antepassados, histórias de família e genealogia: vontade e paciência. A primeira faz-nos começar a pesquisa e continuar quando tudo parece perdido. A segunda permite-nos aceitar que o caminho pode não ser linear e que, certamente, não será rápido.
Então, por onde começar?
Pelo que já sabemos.
Parece-nos que só sabemos o nome, mas, no meio das muitas histórias que ouvimos, há certamente mais informação: um lugar, uma profissão, um intervalo de tempo, uma relação com alguém. No mínimo, sabemos que aquela pessoa é pai, avô ou bisavô de alguém.
Haverá também em casa fotografias, documentos ou outras fontes. É preciso registar toda essa informação. Eu gosto de o fazer em papel, mas um telemóvel funciona igualmente bem.
Nesta fase, o que importa é recolher o máximo de informação possível.
Haverá alguém que saiba coisas que vocês não sabem? Provavelmente os vossos irmãos ou primos ouviram as mesmas histórias, mas retiveram pormenores diferentes. É preciso falar com eles e com todos os elementos da família que possam ter ouvido falar da pessoa que estamos a procurar.
Depois de reunir esta informação e de a juntar à que tínhamos na nossa própria memória, podemos ter a sensação de que afinal estamos na mesma: continuamos sem saber nada de concreto e não temos confirmação de coisa nenhuma.
Foi exatamente o que me aconteceu.
A essa altura, os meus avós já tinham falecido e a minha mãe tinha Alzheimer, pelo que as únicas fontes que podia consultar eram os meus irmãos e primos.
O bisavô José era avô paterno da minha mãe. Viveu em Lordelo do Ouro, no Porto, morreu novo num acidente de barco e tinha uma profissão relacionada com barcos. Devia ter nascido no final do século XIX ou início do século XX, porque o filho nasceu nos anos 20.
Estas eram as minhas pistas. Não tinha qualquer informação confirmada sobre ele.
Mas já não estava exatamente na mesma.
Primeiro, porque a história tinha ganho cor quando lhe acrescentámos as memórias de outras pessoas. Depois, porque, no novelo que é a nossa genealogia, percebemos que há uma informação que temos de confirmar antes de começar a construir a nossa história: nós existimos e somos filhos de alguém.
O primeiro documento
Uma das formas mais simples de começar é procurar a nossa própria certidão de nascimento e, a partir dela, recuar uma geração.
Atualmente, a certidão de nascimento pode ser pedida online através do Civil Online ou presencialmente numa conservatória do registo civil, Loja de Cidadão ou Espaço dos Registos do IRN.
O assento de nascimento contém, entre outros elementos, o nome e a data de nascimento da pessoa, a naturalidade, o nome completo, idade, estado, naturalidade e residência habitual dos pais e os nomes completos dos avós.
É precisamente esta informação que torna o documento tão útil para uma investigação genealógica: uma geração conduz à seguinte.
O importante é encontrar o primeiro documento, a primeira fonte confirmada. É a ponta do novelo. A partir dela, podemos começar a puxar o fio.
Foi o que fiz
Ao pedir a certidão da minha mãe, descobri que o bisavô era José Ribeiro e a data de nascimento do primeiro filho, o meu avô, em 1927, no Porto.
As buscas em casa da minha mãe tinham produzido também a carteira profissional do meu avô, como serralheiro, datada de 1945. Nessa carteira estava o número do bilhete de identidade, o que me permitiu pedir a certidão de nascimento do meu avô.
Tínhamos agora o primeiro documento.
E agora?
Agora é puxar esse fio, geração a geração.
Depois de nós, os nossos pais. Depois deles, os nossos avós. E assim sucessivamente, vamos construindo a nossa árvore genealógica.
A descrição parece linear, mas a investigação raramente o é. Há várias razões para não conseguirmos encontrar o documento que procuramos:
01. Perder a ponta do fio
Por exemplo, quando há uma adoção ou um filho de pai incógnito ou quando, simplesmente, o documento que procuramos não está onde esperamos encontrá-lo.
02. Encontrar informação contraditória
Por exemplo, quando uma certidão indica que alguém nasceu em Ovar e outra fonte indica Espinho.
03. Ter dificuldade em interpretar um documento
Por exemplo, quando não conseguimos ler corretamente um nome numa certidão manuscrita.
Em Portugal, o registo civil foi oficialmente instituído em 1911. A documentação anterior pertence, em grande parte, aos registos paroquiais.
Muitos desses registos encontram-se hoje conservados nos Arquivos Distritais e na Torre do Tombo, e uma parte significativa está disponível em formato digital através da rede de arquivos da DGLAB e do projeto de digitalização de registos paroquiais e podem ser pedidos no Civil Online. Esta disponibilidade online varia, no entanto, consoante o arquivo, a paróquia e o período.
Quando encontramos um bloqueio, vale a pena lembrar como começámos: registar tudo o que sabemos, falar com quem pode saber mais e perceber qual é a última informação confirmada que temos.
Quando não conseguimos avançar, o melhor pode ser dar um passo atrás.
Não encontra o bisavô, mas tem dados concretos sobre a bisavó? Nesse caso, pode valer a pena procurar a bisavó e tentar descobrir quando casou com o bisavô. Procurar pessoas relacionadas ou documentos e fontes alternativas pode ser a solução.
Foi o que me aconteceu.
Só descobri o bisavô José depois de descobrir a bisavó Mariana e o casamento de ambos.
E, afinal, quem era o bisavô José?
Hoje sei que José Ribeiro nasceu em Baião, em 1899.
Aos 10 anos começou a trabalhar como moço de frete nos barcos que faziam o transporte no rio Douro entre o Porto e a Régua. Aos 15 anos fixou-se no Porto, onde viveu com um tio até casar com Mariana, em 1926.
No ano seguinte nasceu o seu filho, Domingos, o meu avô.
De moço de frete foi aprendendo a vida dos barcos e, já mestre, morreu num acidente de barco, em 1949.
A minha mãe tinha três anos.
Há também a memória de um terceiro primo que encontrei mais tarde: sempre que José vinha a terra, trazia-lhe um “bom”.
“Se o teu avô fosse vivo eras uma princesa.”
Hoje sei quem era aquele homem de quem, durante tantos anos, soube apenas o nome.
Saber o nome de alguém pode ser o suficiente para descobrir toda uma história.
Luísa Carrasqueiro
Investigadora Genesis
Também só sabe um nome?
Uma investigação pode começar com muito pouco. Se procura uma pessoa, uma memória ou tem uma pergunta que gostaria de esclarecer, pode começar por uma conversa com a GENESIS.
